Curva ABC e sua aplicação à Engenharia Civil

curva abc

Muitos conceitos relacionados ao Planejamento e Controle de Obras podem parecer complicados para quem não domina as terminologias, práticas e conceitos da chamada Engenharia de Custos.

No entanto, qualquer profissional da construção precisa conhecer algumas das principais ferramentas que temos hoje, e utilizá-las de forma prática e aplicada para um melhor desempenho de seu trabalho, direta ou indiretamente.

Uma destas ferramentas, é a Curva ABC, ou também chamada Regra 80/20 ou até mesmo, Análise de Pareto.
É interessante primeiramente ressaltar que tal conceito não surgiu no campo da Engenharia.

A Curva ABC tem sua origem na área da qualidade e foi desenvolvida por um consultor chamado Joseph Moses Juran a partir de uma análise em que o mesmo identificou que 80% dos problemas são geralmente causados por 20% dos fatores.

Este fato, originou um segundo estudo no Século XIX, desta vez do economista italiano Vilfredo Pareto em que o mesmo identificou que 80% das riquezas são concentradas em 20% da população.

A partir daí os estudos acerca da Curva ABC se aprofundaram e foram disseminados, e foi exatamente por este motivo que a ferramenta ficou conhecida como Análise de Pareto.

E a Curva ABC começou a ser utilizada em áreas como administração de materiais, com destaque para o Controle de Estoque e a Gestão da Qualidade.

Mas é oportuno ressaltar que a ABC pode ter seu conceito e aplicação ampliadas para qualquer tipo de análise, até mesmo as mais inusitadas, como por exemplo, no setor comercial de uma empresa identificar os principais clientes, e analisar a dependência e risco face ao cliente, ou ainda, quais deles a organização deve optar por focar em determinado momento.

E isso está diretamente relacionado ao conceito e forma de se desenvolver a Curva ABC, como é possível compreender a seguir.

Mas afinal, o que é Curva ABC?

É um método de classificação de informações em que se segregam os itens de maior importância ou impacto, os 20% ditos anteriormente que em geral, representam cerca de 80% da importância como um todo.

Abaixo é possível compreender melhor do que se trata a Curva ABC. Note que estão destacados os primeiros itens da lista, estes são os chamados Itens A da curva ABC. O nome “ABC” portanto, vem desta classificação, sendo que cada item pode ser nomeado como “A”, “B” ou “C”, dependendo do grau de relevância do mesmo no montante!

o que é curva abc

A classificação segue, em geral, a seguinte definição:

classificação curva abc

No entanto, os percentuais não são exatos, mas aproximados, ok?
Observe que na 1ª Tabela temos os itens da Curva ABC na sequência do item de maior valor para aquele de menor valor. E que a cada um deles é atribuído %, que representa uma relevância sobre o total.
O nome “Curva” é proveniente do fato de que, ao gerar um gráfico com os %’s da coluna %Acumulado, o formato do gráfico é uma curva como a que é possível visualizar abaixo.

representação curva abc

Como bons engenheiros, arquitetos, profissionais das Exatas, é fundamental fazer uma leitura adequada no Gráfico da Curva ABC. Temos no Gráfico acima, dois eixos, em que o Eixo X representa a quantidade dos itens relacionados, e o Eixo Y o Peso (“%”) ou grau de importância dos elementos.

Também é importante saber que quando falamos em classificação é preciso ter um CRITÉRIO DE CLASSIFICAÇÃO.

No caso da ABC voltada para área de Gestão de Estoques, amplamente utilizada como dito anteriormente, a classificação dos elementos pode ser feita seguindo os seguintes critérios:

⦁ A partir do Custo dos itens: assim é possível saber aqueles com maior valor de estoque;

⦁ A partir do valor de venda: identifica-se quais são aqueles que impactam mais na receita proveniente da venda do produto.

Apenas a título de conhecimento, na aplicação na Gestão de estoques a Curva ABC pode ser um método que vai gerar grandes impactos no setor de estoque, como por exemplo:

⦁ Os itens da Curva “A” (mais relevantes) são aqueles que normalmente vão ter maior saída no estoque. Estes, portanto, são aqueles itens que no estoque físico ficam nas prateleiras inferiores dos pallets, para facilitar o escoamento -> MUDANÇA NA ORGANIZAÇÃO DO ESTOQUE;

⦁ Estes mesmos itens são aqueles que vão demandar maior cuidado de reposição -> MUDANÇA NA ORDEM E PRIORODADE DAS COMPRAS

Estes, são apenas dois de vários outros exemplos que poderiam ser dados.

Mas, é preciso saber que quando falamos em IMPACTO isso significa que, se pouco ou mal controlado um Item “A”, pode ser um desastre para os resultados do negócio. Ainda no exemplo dos Estoques, se uma mercadoria com grande saída deixa de ter reposição no tempo e quantidades corretas, este fato impacta diretamente na venda do produto e consequentemente faturamento naquele período.

Bom, mas o foco aqui é mostrar a APLICAÇÃO desta ferramenta na ÁREA DA ENGENHARIA, não é mesmo?

Pois bem.

O fato é que o conceito da ABC se difundiu de uma maneira tão rápida, e por ser uma ferramenta de fácil utilização, nós profissionais da construção acabamos por adotar a Curva ABC para a análise das nossas obras.

Curva ABC na Construção Civil

A Curva ABC é amplamente utilizada pelos profissionais Engenheiros de Custos, sobretudo, aqueles que trabalham no desenvolvimento dos Orçamentos Analíticos de Obra.

Um Orçamento Analítico, como explicado nos artigos anteriores a este, é uma ferramenta do Planejamento de Obras que detalha os serviços que compõe o escopo de uma obra e atribui a estes serviços, custos para execução dos mesmos.

Em resumo, um orçamento é utilizado para identificar o Custo total de uma obra. Este é o objetivo.

Ele pode ser feito com mais ou menos detalhes. O Orçamento Analítico é aquele em que as atividades são detalhadas a partir dos Projetos Executivos e com eles é possível quantificar os serviços, e em um grau de detalhamento ainda maior, formar as Composições de Custo unitário que determinam o custo de cada serviço.

E com as Composições (CPU’s) é possível criar uma Lista com 100% dos insumos que a obra vai necessitar ao longo de TODA a sua execução.

É possível visualizar abaixo como o grau de detalhamento da informação em um Orçamento funciona. Quanto mais detalhes e quanto mais a fundo o profissional orçamentista embasa o seu trabalho, maior o grau de informações e consequentemente, maior seu poder de análise!

Na Engenharia o Critério de classificação dos itens da Curva ABC é o custo do insumo. Ou seja, quanto aquele item custa no mercado de materiais, mão de obra e equipamentos.

Com isso, uma das Aplicações da Curva ABC é a identificação dos insumos mais relevantes em custo em cada obra!

Note que, para um insumo ser relevante, ele não somente deve ter o Custo unitário elevado. Além desta variável, o que o torna Item “A” é a quantidade que este insumo será necessário para execução da obra. Quantidade esta que vem dos projetos e composições de custo unitárias. Em resumo, quando o orçamentista finaliza o Orçamento Analítico, é possível gerar a lista de insumos e transformá-la em uma Curva ABC.

Como desenvolver a Curva ABC?

Para melhor entendimento do Tema, é preciso saber como de fato uma Curva ABC é desenvolvida.

Veja abaixo a Lista de insumos da Obra Residencial mostrada anteriormente.

curva abc modelo

Esta lista está em Ordem Alfabética e note que a cada insumo foi possível identificar a quantidade de cada um, assim como a sua unidade, e o seu custo unitário. O custo unitário é aquele que o Orçamentista através da Pesquisa de preços atribuiu ao insumo.

Para gerar a Curva ABC pode ser utilizado o Excel, como uma ferramenta mais prática e acessível a todos. Programas voltados para Orçamentação, normalmente já possuem em seus Relatórios-padrão, a Curva ABC para cada orçamento assim que finalizado.

Pois bem, os passos para gerar a Curva ABC neste exemplo prático são os seguintes:

⦁ Ordenar os itens do item de maior para aquele de menor valor (o Excel possui um recurso chamado “Classificação” e nele é possível reordenar de forma automática);

⦁ Numerar cada item, para que seja possível identificar quantos insumos temos em toda a obra (no nosso exemplo a título de ilustração temos pouquíssimos insumos perto do que uma obra real teria);

⦁ Calcular o Peso ou % para cada insumo (divide-se o custo do insumo pelo custo total de todos os insumos);

⦁ Calcular o Peso ou %Acumulado: é a soma do custo do insumo com todos aqueles anteriores a ele. No último item o total deve somar 100%;

⦁ Classificar cada insumo como “A”, “B” ou ”C”, sendo, conforme o critério exposto anteriormente, itens “A” aqueles que somados representam 80% dos custos, “B”, 15% do custo e “C”, os 5% restantes. Os percentuais são aproximados, ok?

Assim é possível gerar a Curva ABC a partir dos insumos de uma obra!

Aplicação da Cuva ABC no Orçamento de Obras

O orçamento foi finalizado e o Orçamentista acaba de gerar a Curva ABC. Trabalho finalizado? De forma alguma! A partir da Curva ABC são identificados os insumos que mais impactam em custo na obra. Isso significa na prática que aquele insumo é muito sensível a variações do custo unitário do insumo, para mais ou para menos.

Ou seja, nesta fase é fundamental, principalmente em obras de concorrências entre construtoras, a negociação destes insumos junto aos fornecedores, ou reavaliação dos serviços que envolvem estes insumos, para redução de custo. Da mesma forma, se a cotação junto aos fornecedores for feita de forma errada, vai haver impacto direto no custo total do empreendimento como um todo!

A nível de planejamento, ainda na fase de orçamento, a quantificação equivocada destes insumos, por erros de projeto ou mesmo despreparo do profissional que fez o levantamento, podem causar erros grotescos de orçamento.

Pensando agora a nível de Controle (sim! A Curva ABC também é uma ferramenta de controle!), desperdícios frutos da má gestão em campo, podem ocasionar consumos mais elevados destes insumos e consequentemente causar uma diferença do previsto em relação ao realizado. Em outras palavras, prejuízo a construção.

E, quando da compra e contratação destes mesmos insumos for feita uma boa negociação da equipe de compras, é possível obter grandes ganhos econômicos. O contrário também é válido: compras e contratações acima dos custos unitários previstos no planejamento, podem causar, nos itens “A”, prejuízos irreparáveis.

O profissional que trabalha com Orçamentos normalmente já sabe a partir do tipo de obra, quais são os insumos que vão aparecer no Item “A”, antes mesmo de começar seu Orçamento.

Exemplos:

⦁ Obras residenciais por exemplo, com estrutura em concreto armado, quase sempre tem o concreto, o aço e madeira para forma no topo da Curva ABC.

⦁ Obras industriais como Galpões, tem na grande maioria das vezes, a estrutura metálica, a cobertura e fechamentos laterais como Itens principais.

⦁ Obras comerciais, exemplo, Hospitais, tem uma série de Instalações especiais que em geral, quando feita a ABC de Serviços, aparece no topo da lista.

Logo, a Curva ABC tem outra função fundamental ao Orçamentista: TORNAR SEU TRABALHO MAIS OTIMIZADO E FACTÍVEL. Como? Criando prioridades!

Quando se sabe quais são os possíveis insumos da Curva “A” de obra, o orçamentista deve se esforçar para cercar-se de informações mais precisas para estes elementos, buscar dados relevantes nos projetos, quantificar com atenção redobrada.

E na hora de fazer suas pesquisas de preço no mercado, ele deve centralizar sua atenção nestes itens, buscando opções de fornecedores (nunca trabalhar com 1 apenas), compreendendo como otimizar algum processo executivo, ou ajuste no cronograma de obra que impacte no consumo daquele item.

Um clássico exemplo é a utilização de formas de madeira, que é impactada pelo tipo de madeira aplicada, a quantidade de vezes que ela é reutilizada que depende do tipo de material (mais ou menos resistente), do projeto e do cronograma, fundamentalmente.

Portanto, a partir do que se conhece como Item “A”, é possível se pensar na otimização do planejamento, antes mesmo de concluí-lo.

Aplicação da ABC após a finalização do Orçamento e entrega ao cliente

Quem trabalha com orçamentos sabe que nem sempre o trabalho finaliza com a entrega do Orçamento.

É muito comum, portanto, que ao entregar o Orçamento de Obra, o cliente se assuste com o valor final obtido, e por uma questão de limite de recurso para aquele empreendimento, ou qualquer outra situação que envolva risco no negócio, o orçamento sofre revisão.

Assim como na fase de planejamento do desenvolvimento do orçamento, ter conhecimento dos itens da Curva ABC, permitem que ao trabalhar na otimização de um orçamento de obra, tenhamos o foco voltado aqueles itens que realmente impactam no custo total.

Não é nada eficaz esforçar e empregar recurso e hora de orçamentista para reduzir a quantidade de pregos naquele exemplo que eu dei anteriormente. Note que este insumo tem uma representatividade muito pequena. Se o custo variar para 2x o custo que tínhamos planejado, o impacto no custo total da obra será mínimo.

Quem tem objetivo de reduzir custo de uma obra deve saber o que é uma ABC!

Por este motivo, não somente o orçamentista deve conhecer esta ferramenta. Mas inclusive o cliente deve saber que, para alterar escopo do projeto que ele deseja executar, ele necessariamente terá de criar ações junto a equipe de engenharia de obra e planejamento para ter êxito!

Com isso, fica bastante claro a importância do uso desta ferramenta em todos os níveis de gestão. O mais interessante é que qualquer pessoa, independentemente de ser da área da construção pode aproveitar estes conceitos e práticas em qualquer tipo de análise de prioridades, o que a torna uma ferramenta de grande APLICABILIDADE!

Curva ABC e sua aplicação à Engenharia Civil
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Murilo Barbosa

Murilo Barbosa

Atuou no Pentágono (USA), Metro SP Linha Amarela, Hidrelétrica RJ/MG (UHE Simplício), P. Central Hidrelétrica (Sítio Grande/BA) e em outras obras de infraestrutura no Brasil; Mais de 50 clientes recorrentes; Atuação plena em mais de 12 Projetos de empreendimentos imobiliários | • Engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); • MBA em Gestão de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV); • Especialista em Estudos de Viabilidade Econômico Financeira pela Universidade de São Paulo (USP); • Sócio da BID Gerenciamento e Planejamento, criada em 2014 como Consultor de Planejamento e Controle de Obras.

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